Evento realizado na sede da CUT Goiás marca etapa final de projeto nacional e destaca papel da agricultura familiar na soberania alimentar e no desenvolvimento social.
A sede da CUT Goiás recebeu, entre os dias 28 e 30 de abril, a etapa de encerramento da Teia da Reforma Agrária, iniciativa voltada ao fortalecimento da produção, comercialização e organização da agricultura familiar nos assentamentos. O encontro reuniu agricultores e agricultoras familiares, representantes de movimentos sociais, sindicatos, instituições públicas e especialistas para debater políticas públicas, financiamento, produção sustentável e os desafios enfrentados no campo.
A atividade é uma iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, em parceria com o INCRA, o Instituto Federal do Rio Grande do Norte e a FUNCERN, além do apoio da CONTRAF-Brasil e da FETRAF Goiás. Antes de chegar a Goiás, o projeto percorreu os estados de Pernambuco, Pará, Piauí e Rio Grande do Norte.
Abertura destaca produção, diversidade e papel da agricultura familiar
A mesa de abertura contou com a realização do Seminário Estadual sobre Produção e Comercialização da Reforma Agrária e reuniu representantes de diversas instituições e organizações ligadas à agricultura familiar. Participaram nomes como Josana Lima, coordenadora-geral da CONTRAF Brasil; Jéssica Brito, superintendente do MDA em Goiás; Francisco Caramuru, da ANATER; Dulce Costa, diretora da CUT Goiás, as parlamentares Bia de Lima, deputada estadual (PT-Goiás) e Adriana Accorsi, deputada federal (PT-Goiás); além de dirigentes sindicais e representantes de entidades parceiras.
Em entrevista para a CUT Goiás, a coordenadora da CONTRAF-Brasil, Josana Lima, destacou o caráter estratégico da iniciativa como espaço de escuta e articulação nacional.
“Esse é um momento muito importante para identificar, para além da luta pela terra, o que os nossos assentamentos têm de produção, o que têm de mais rico, que é exatamente essa diversidade de alimentos”, afirmou.
Josana também ressaltou o papel central da agricultura familiar na alimentação da população brasileira, ao mesmo tempo em que apontou os desafios enfrentados pelo setor.
“Nós somos a categoria que alimenta mais de 70% do que vai para a mesa dos brasileiros, e ainda assim enfrentamos muitas dificuldades”, pontuou.
A dirigente destacou ainda a importância da atuação conjunta entre movimentos sociais, sindicatos e o governo federal para garantir avanços concretos. “Precisamos de inovação, tecnologia, terra, água, crédito e assistência técnica para garantir essa diversidade que alimenta e leva saúde para toda a população”, concluiu.
Mulheres na Roça e protagonismo feminino no campo
Ainda no primeiro dia, um dos momentos de destaque foi o Encontro Estadual do projeto “Mulheres na Roça”, que reuniu trabalhadoras rurais para debater produção, autonomia e organização coletiva.
A coordenadora da FETRAF Goiás, Agajoeme Alves, destacou a importância do espaço como ferramenta de fortalecimento das mulheres no campo, ampliando a troca de experiências e o protagonismo feminino na produção agrícola.
Segundo dia começa com defesa da merenda escolar e alerta contra terceirização
O segundo dia da programação foi aberto pelo diretor da CUT Goiás, Napoleão Batista, que destacou o papel estratégico da agricultura familiar na alimentação escolar.
“São alimentos de qualidade, que alimentam as crianças da melhor maneira possível quando chegam à merenda escolar”, afirmou.
O dirigente reforçou a defesa da priorização da agricultura familiar no fornecimento dos alimentos nas escolas e alertou para riscos de retrocesso diante da possibilidade de terceirização da merenda escolar na rede municipal de Goiânia.
“Aqui em Goiânia nós não vamos aceitar a terceirização da merenda escolar. Isso pode colocar em risco a qualidade dos alimentos e afastar a agricultura familiar desse processo”, declarou.
Produção, comercialização, crédito e desafios no campo marcam Painel 1
O Painel 1 reuniu representantes de assentamentos, instituições públicas e entidades para discutir a produção agrícola e os desafios enfrentados no campo.
Durante o debate, Agajoeme Alves destacou que, apesar dos avanços, ainda há dificuldades importantes, especialmente no acesso ao crédito.
“Os programas como o Pronaf são importantes, mas ainda é difícil acessar o Pronaf Jovem e o Pronaf Mulher”, afirmou.
Ela também ressaltou o protagonismo das mulheres na produção e comercialização. “Tem muitas coisas boas acontecendo, principalmente com as mulheres, que estão avançando nos programas institucionais e nas feiras”, destacou.
Complementando o debate, Jandilson de Morais, do INCRA Goiás, ressaltou a importância da formação e do acesso à informação.
Segundo ele, espaços como a Teia da Reforma Agrária são fundamentais para que os trabalhadores e trabalhadoras compreendam as diferentes modalidades de crédito e possam se organizar para acessá-las. “É nesses momentos que as famílias tomam conhecimento das linhas de crédito, das modalidades de instalação e dos requisitos necessários. A partir disso, elas conseguem se preparar, se planejar e saber que existe um recurso disponível para melhorar sua renda”, explicou.
Jandilson também destacou que o acesso ao crédito exige organização prévia, como a regularização de documentos e cadastros. “É preciso, por exemplo, estar com o CadÚnico atualizado. Esse planejamento é essencial para que, posteriormente, as famílias consigam avançar no acesso a políticas como o Pronaf”, afirmou.
Comercialização e PAA são destaques no Painel 2
No período da tarde, o Painel 2 abordou a comercialização dos produtos da Reforma Agrária. O superintendente regional da CONAB Goiás, Luiz Carlos, destacou o papel do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) como ferramenta de inserção dos agricultores familiares no mercado.
Em entrevista para a CUT Goiás, Luiz afirma que o programa permite a compra da produção e sua destinação a escolas e entidades sociais, fortalecendo a economia local.
Luiz Carlos também destacou a legislação brasileira que garante a presença da agricultura familiar na alimentação escolar, a Lei nº 15.226/2025 que alterou a Lei nº 11.947/2009.
“Hoje, 45% dos recursos da alimentação escolar precisam ser destinados à compra de produtos da agricultura familiar. Isso não é uma escolha, é uma obrigação legal”, afirmou.
Projetos fortalecem produção e autonomia das mulheres
As experiências apresentadas no evento também evidenciaram o impacto de projetos voltados às mulheres agricultoras.
Agajoeme destacou o programa dos Quintais Agroecológicos como uma das principais iniciativas da FETRAF Goiás. “Esse projeto melhora a produção, garante alimentos saudáveis e ajuda no dia a dia das mulheres”, afirmou.
Ela destacou ainda os investimentos em infraestrutura, como galinheiros, tanques de peixe e equipamentos agrícolas, mas ressaltou a necessidade de ampliação do acesso.
“É um sonho para as(os) agricultoras(es), mas ainda é pouco. Precisamos ampliar”, disse.
Complementando, a coordenadora de projetos da Rede Energia das Mulheres da Terra, Agnes Santos, que participou do Painel 2, apresentou iniciativas com tecnologias sociais voltadas à produção.
O projeto atua em diversos territórios com soluções como biodigestores, energia solar e captação de água, fortalecendo a produção e a autonomia das mulheres.
Encerramento reforça organização e luta coletiva
O terceiro dia do evento será marcado pelo debate sobre os desafios do movimento sindical da agricultura familiar frente à Reforma Agrária em Goiás, reforçando a necessidade de organização coletiva, fortalecimento das políticas públicas e ampliação do apoio institucional.
Ao sediar a etapa final da Teia da Reforma Agrária, a CUT Goiás reafirma seu compromisso com a defesa da Reforma Agrária, da agricultura familiar e da soberania alimentar.
A atividade reforça que a produção de alimentos, a geração de renda e o desenvolvimento social passam, necessariamente, pelo fortalecimento dos trabalhadores e trabalhadoras do campo.